14 abril 2008

Pastilha Estás à Janela!

Sou uma gaja com uma personalidade aditiva. Consequentemente não é estranho ter, ou vir a adquirir ao longo da minha jornada terrena, vícios das mais variadas estirpes. De momento, as minhas únicas compulsões com tendências megalómanas baseiam-se em chocolates, cremes, palavras e pastilhas elásticas (pelo menos que me lembre). Podia ser pior. Confesso que vivo aterrorizada pela possibilidade de uma proliferação furtiva de vícios mais nefastos. Espanejo com violência todas as projecções macabras de um futuro como fumadora inveterada, alcoólica transviada, heroinómana ressacada, jogadora compulsiva ou, quiçá, ninfomaníaca tarada. Enquanto apago as imagens grotescas de uns pulmões apodrecidos pelas inspirações sucessivas da nicotina adulterada pelo alcatrão, de um fígado espancado por incontáveis bezanas, de uns braços deploravelmente esburacados do uso inconfesso de seringas, e de uma vida de gang bangs consecutivos premiados por doenças com nomes tão sugestivos como gonorreia, masco com convicção uma das dezenas de pastilhas elásticas do dia.

Todos os pecados são o resultado de um qualquer excesso cometido; é por isso que todos os excessos acabam por ser punidos com situações embaraçosas. A minha relação demasiadamente apaixonada com as pastilhas elásticas não é excepção e já teve consequências vergonhosas. Passo a citar as que, por agora, me recordo:

À uns anos, estava eu animadamente numa mesa de café a sair-me bem no processo de concepção de novas amizades, quando, inopinadamente, a amenidade do diálogo foi interrompida pelo salto abrupto de um pedregulho branco da minha bocarra linda. Podia ter dito que tinha caído do tecto. Afinal, a realidade é tão fugaz que, com um pouco de convicção, se calhar não teria sido difícil convencer meia dúzia de pessoas que as minhas beiças não se tinham aberto e regurgitado aquele calhau. Mas, na altura, tal não me ocorreu e optei por elucidar os meus potenciais amigos quanto à ausência de próteses dentárias no meu dia a dia, admitindo que aquilo tinha sido apenas uma pastilha elástica que tinha comprado na Hussel com, obviamente, desconhecimento completo do seu tamanho avantajado. Deste modo, abafei os instintos primários que me levaram a triturar vinte e tal pastilhas ao mesmo tempo.

Também me acontece frequentemente virem-me alertar para a possibilidade de uma infecção dentária me estar a inflacionar um dos lados da cara; o que acontece quando a imensa massa elástica, que voluntariamente coloquei na cavidade bocal, migra e imobiliza-se numa das bochechas com o objectivo de dar descanso aos meus maxilares.

Quanto a comentários recorrentes referentes ao meu malogrado vicio, destaco o paternalista:
“Sabes que as pastilhas elásticas têm efeito laxante? É melhor não comeres tantas! Não estou a inventar, diz na caixa, já leste?”
É claro que já li! E é igualmente claro que em mim o efeito laxante já se extinguiu à muito. Esse tal de efeito laxante é para meninos, não é para pessoal batido como eu que já anda nisto das pastilhas há séculos! Sim, eu já trilhei todo o submundo moderno destas iguarias peganhentas! Comecei aos cinco anos com as já velhinhas pastilhas Gorila, compradas a cinco escudos cada. Depois vieram as Chiclet. Como eu gostava de arrasar de uma vez só com uma caixa inteira daquelas azuis de mentol. Que estalo que aquilo dava! Estou convicta que toda a colheita humana dos anos oitenta que teve uma infância decente guarda estas duas marcas com carinho na memória…

Actualmente, consumo e recomendo as Trident, sem excepção de nenhuma linha ou sabor: azuis, verdes, max air, de frutos silvestres, splash, morango, pêssego, senses, etc…todas sabem bem, todas proporcionam um mascar agradável e todas dão para fazer uns balões porreiros!

Adiante…

Como eterna inquisidora do mundo que me rodeia, já me ocorreu questionar para onde vão todos os dejectos elásticos com que já mimoseei o chão no decorrer dos meus passeios citadinos. Lembro-me de uma ou outra vez ter tido o infortúnio de pisar esta matéria pegajosa. Mas uma ou outra vez, de acordo com a teoria das probabilidades, é muito pouco! O que não deve é faltar gente por aí como eu a minar o chão de pastilhas! Convenci-me então que os resquícios mastigados do que outrora fora um rectângulo imaculado desapareciam na voragem das águas que lavam as ruas.

Contudo, há pouco tempo, o meu primo veio falar comigo:
- Já reparaste que o chão de Lisboa está todo conspurcado por essa merda de fenómeno das pastilhas elásticas?!?
- A sério? Nunca vejo nenhuma! – Respondi eu, ingenuamente.
- Sim, com o tempo ficam pretas e espalmadas contra o chão. Parece que o chão está todo manchado de pintas negras!

Não convencida pela sugestão de as minhas queridas pastilhas andarem por aí a caluniar os passeios e as estradas de porcos javardos, resolvi ir a correr confirmar a veracidade (ou não) de tal afirmação.
Fiquei horrorizada! Aquilo que eu sempre pensei serem meras marcas da sujidade do tempo, afinal são um batalhão de pastilhas defuntas!

E foi assim que abandonei de vez o meu passatempo alarve de cuspir pastilhas elásticas em fim de vida para o meio da rua, para gáudio dos meus adversários nos concursos do “Cuspir Mais Longe”, em que sempre fui orgulhosamente campeã!

1 comentário:

Vasco Gaspar disse...

Finalmente resolvido o mistério dos circulos no alcatrão! Não são fungos, nem seres extraterrestres... São só mesmo pastilhas... :)

Ora aí está uma coisa que tenho que deixar de fazer...